AUSÊNCIAS

Saiu de casa a correr e aligeirou-se nas escadas pois o elevador estava ocupado.
Já na rua, com o guarda chuva a não querer abrir, esticou o braço ao táxi que passava.
Sem sorte, desceu a calçada. A praça era mesmo ali e não tinha de caminhar muito.
De qualquer forma o tempo estava hediondo e a bagagem pesada.
Chovia, exageradamente, e o vento arrancou-lhe os ganchos do cabelo, que levara uns bons 10 minutos a arranjar.
Bolas, como estava atrasada.
A caminho do aeroporto não conseguiu deixar de sorrir. Ainda sentia o seu cheiro a inundar-lhe a carne.

- Desejamos -lhe um excelente voo, na nossa companhia!

Sentada junto à janela, como, invariavelmente, preferia, olhou para baixo.
E foi quando um enorme vazio lhe invadiu todo o corpo.
Sentiu-se mais minúscula que todos os edifícios e luzes que deixavam para trás.
Mais negra que o gigantesco céu, pleno de nuvens ameaçadoras.
Fechou os olhos e fez-se escuro. 
Os deles, se os conseguisse visualizar, estariam perdidos em copos de mágoa e lençóis vazios.
Chamou a hospedeira 
- Um Porto, por favor.




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