O MOTE

Passou uma eternidade desde o último dia que se permitira amar.
Um ponto de encontro, dois estranhos à entrada de um bar.
- Posso acender-te o cigarro? - perguntou ele colocando o isqueiro junto ao cigarro.
Não havia gelo, apenas vontade de partilhar.
Seguiram-se os gestos, as luzes estonteantes, os risos e
os anéis de fumo perfumados.

Se lhe dissessem que se iam beijar, ter-se-ia rido...Não queria ninguém para beijar...
De resto, nem sabia o que queria. Talvez apenas sentir-se viva.
O que ele queria? Também não sabia, de resto, não tinha tempo para pensar.
O abraço dele soou a verdadeiro... tão verdadeiro... chegava-lhe.
Os seus olhos, quando ele permitia que olhasse dentro deles,
sussurravam, muito baixinho, solidão.
Entendeu tão bem.
Num ápice perdiam a cabeça. O desejo ardia, a razão não tinha forças.


Encontraram-se mais vezes. Sem planos. Mas sem razão para o fazer.
Teimavam em desafiar os deuses.
Bebiam do vinho, da loucura e do prazer imediato.
Falavam apenas de aventuras, e davam dicas das suas vidas,
mesmo assim mantidas em segredo.
Nunca se expuseram... não deviam, nem queriam.
Receio de se envolver? Talvez...

Acordou uma manhã bem lúcida Sentia que não podia continuar... a estrada não constava do mapa.
Era como se existisse um caminho, mas que não queria sequer conhecer.
Teve medo de se perder?? Talvez...

Passou uma eternidade, e a imagem daquela silhueta, ás vezes,
persegue o seu espaço. Não porque alguma vez a amasse...
De resto nunca a quis sequer amar.
Entregava-se apenas à sensação de estar viva.
E se desejou tantas vezes voar, mesmo com medo de cair,
foi cobarde o suficiente para se resumir ao espaço da sua gaiola.
Era tão livre e tão prisioneira...
Tinha medo que o amar fosse a vontade de esquecer, ou então o esquecer
o mote para amar (de novo).

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