GLOSA


Um grupo de caras felizes inunda a piscina,
que quente, acolhe os corpos frenéticos.
Risos, gritos das crianças, beijos dos amantes.
Na espreguiçadeira uma mulher absorta.
O livro que aparentava ler, caído no chão.
Os olhos plenos de vazio...
Observo-a...
Pele avermelhada pelo sol que,
tão raramente, brinda o seu país;
Corpo de quem já teve um filho;
Marcas de desgosto estampadas nas rugas,
apenas disfarçadas pelo blush.
Ao lado um homem, de ar taciturno e pulso Breitling,
imerso nas mensagens que chegam, mas tenta ocultar.
- Quase nada... com o tempo resignou-se a não ter de o fazer.
Um outro homem, atento ao casal, sorri irónico;
Sorve um cigarro como quem carece de ar
Imagina-se presentear aquela mulher,
com o suor dos seus corpos.
Não o esconde...
Pelo menos de mim.
Mais longe um casal de lésbicas,
trocam olhares cúmplices e carícias,
as mãos entrelaçadas flagram o amor.
Nada disfarçam, são filhas de  outra dimensão.
Uma avó enternecida contempla o neto,
que acabou de apanhar um caracol e retirou-lhe a carapaça.
Também ela já foi assim, jovem e inconsequente.
Agora numa cadeira de rodas, com idêntica couraça,
disfarça a tristeza dos seus dias.
Eu...
Eu, procuro o teu olhar.
Não estás... ainda assim insisto na demanda,
Não identifico nenhum como o teu.
De resto, nem poderia, não saberia...
Não é igual aos outros.
No teu, uma mistura de doçura com
mágoa infindável.
No teu,
Temo perder-me e não me encontrar mais.








Comentários

Mensagens populares