LIÇÃO DE VIDA

Ontem, disseram-me, lá no mercado,
que tinhas ido embora...
Levavas a guitarra ao ombro
e o chapéu de palha na cabeça,
não sei se para te proteger do sol
se para esconder a melancolia da partida.
Disseram que levavas o mapa na mão
o mesmo que me mostraste a primeira vez que te vi,
onde assinalavas todos os locais por onde passavas
e "onde tinhas sido feliz" - disseste.
Recordo-me de te questionar se não tinhas uma casa,
alguém à tua espera...
Era uma forma tão estranha de estar, a tua!!
"Esta é a minha casa" - respondeste com o
teu sorriso mais encantador, erguendo os braços
como se quisesses abraçar o mundo...
Colaboravas na vila, ora a carregar os cestos de fruta
da tia Alice, ora a cortar a relva na quinta do Dr. Faustino.
Meditavas, no final do dia, sentado no topo do monte, por entre os risos genuínos das crianças que te seguiam para todo o lado.
Tocavas melodias que todos conheciam,
e batias palmas como um maestro que dá o ritmo.
Todos queriam a tua companhia para ajudar,
e todos, sem exceção, te recompensavam com
alimentos, uma cama ou um, reconfortante, banho quente...
Mais do que isso ...
Todos faziam questão de retribuir o mesmo carinho que lhes davas.
Percebi o quanto eras grato pela vida, pela liberdade,
pelo amor, pela partilha...
Percebi que as tuas viagens não eram, senão,
o encontro constante com a felicidade, e a partilha da
mesma, com quantos a quisessem receber.
Afinal também eras uma espécie de professor, de mestre,
de biblioteca itinerante ...
Partiste...
não sem antes deixar a tua luz na minha vila,
o teu sorriso impresso no meu peito,
e a maior lição de vida que um ser humano pode aprender.



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