PASSADO




Ouviu a palavra que, há tanto, sabia calada: acabou!
Foi como se tudo à sua volta deixasse, por momentos, de existir e uma imensidão de nada tomasse conta do seu corpo: ACABOU…
Por rasgos pensou: nas carícias, nos beijos, nos risos há tanto trocados por dor e raiva.
Sentia – sim, sabia – que estaria prestes a rebentar.
Mas agora… quase não acreditava: era cruel a verdade.
Não era isso que queria, afinal?
Demorara tudo a perceber que esperava algo
que nunca desejaria ver acontecer.

Agora, o tempo corre sem parecer caminhar.
Desvairada, agarra o passado como se só deste se tratasse, quando na realidade só poderá realizar o futuro.
O que ficou para trás ali deverá permanecer – diz-se e dizem-lhe, vezes sem conta - como se apenas disso se tratasse… deixar para trás.
Involuntariamente não consegue fazê-lo.
Sabe que deve, que precisa, mas aquela força de vontade que deveria amparar esse dever e essa imperiosa necessidade, não existe.
E insiste (qual demente, alienada, tresloucada) em ficar ali… no limbo, agarrada a um passado que já não existe, nem tem condições de se retornar presente ou futuro.
Ou então, agarrada a uma ideia de passado que não é senão, apenas, isso.

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