O Céu não pode estar longe
Amanhecia. Passara a noite sem conseguir libertar-se de pensamentos, de fantasmas e não descansara; precisava levantar-se.
A reunião marcada para as 9:00H, e há muito ansiada pela empresa, soava como um alarme intermitente, na cabeça.Pela janela, mal fechada, entrava uma luz, ainda não muito intensa, mas que prometia ofuscar a escuridão que teimava em pairar no mais ínfimo recanto do seu corpo.
Olhou fixamente para ela o que lhe permitiu observar o primeiro raio de sol que, de rompante, entrou pela frincha do estore – e claramente viu-o, … ali, a sorrir.
“ - Não consigo parar de olhar-te… és linda, … até a dormir! Interrogo-me como vai ser a Maria. Olhos castanhos, morena como tu, ou olhos verdes e loira como eu; refilona, teimosa e stressada como a mãe, ou serena e descomplicada como o pai (sorriu).
Pai … só o pronunciar a palavra me faz feliz. Sabes, na minha paleta de cores ainda não tinha acrescentado o cor-de-rosa, ou o azul-bebé… talvez por receio de não saber cuidar, de não ser suficientemente responsável e temer não ser capaz.
Não rias… isto é sério! Bati muito mal! Foi um impacto grande, mas aos poucos vou ganhando confiança. E tu – tu estás aqui!”
O telemóvel interrompeu.
- Sim Joana, não te preocupes. – Chegaria a horas e com o projecto devidamente estudado. Nada poderia falhar.
Levantou-se e de modo pesaroso dirigiu-se ao duche.
A água morna caia sobre os sentimentos e as amarguras. Deixou-a correr, talvez a força desta a libertasse. Demorou algum tempo antes de pegar no gel de banho.
Massajou a barriga com delicadeza - Estava enorme. Sentia-se enorme. – Do outro lado um agitar espreguiçado como que a dizer “estou aqui”. Faltava pouco mais de duas semanas e sentia-se exausta.
Quando terminou ele estava ali, à espera, como sempre fazia, com a toalha estendida e um sorriso enorme estampado:
“ – Não consigo parar de olhar-te … és linda… e eu sou o homem mais feliz do mundo! Vá, despacha-te ou não resisto e voltas a chegar atrasada! (risos) – se quiseres podemos ir juntos. Preciso passar na Galeria e acertar o valor da comissão. É o 4º este mês. Outra exposição, como esta, e podemos pensar na tal monovolume.”
Arrastou-se para o carro. O último trimestre apresentava-se um pesadelo. Não tinha forças nem para carregar os “croquis” para a reunião.
O Sol forte iluminava, com todo o seu esplendor, o bairro que ela e Edgar tinham escolhido, meticulosamente, para começar a nova etapa, que agora se avizinhava, com Maria. Fora ele o primeiro a dizer um nome para a bebé: Constança.
Rira-se muito e dissera que lhe fazia lembrar o nome da avó de uma amiga da primária que, todos os dias, lhe impingia um lanche enorme, impossível de terminar durante o intervalo, e por isso ficava, na maior parte das vezes, sem brincar. Solidária com ela, recordava-se de se sentar ao seu lado e deixar as brincadeiras para os outros, também. Decididamente não seria Constança.
Maria surgiu quando, no final do primeiro trimestre de gravidez, visitaram a exposição de Maria Strada, a nova coqueluche da pop arte e meia-irmã de Edgar. Não a conhecia pessoalmente, mas sabia tudo sobre ela - vivia na Argentina com o namorado, um boliviano ligado à indústria cinematográfica, e, tal como Edgar amava a pintura. Por razões profissionais não pudera estar presente quando, ao fim de 6 meses de tórrida paixão, Edgar resolvera pedi-la em casamento.
Adorou-a no primeiro segundo. Era imensamente jovem, apesar dos seus 42 anos, e deliciosamente fresca. Parecia uma miúda acabada de sair da faculdade. Repleta de energia que contagiava só com o olhar.
“- Maria! Podem chamar-lhe Maria e adorava ser a madrinha!”
Andou cerca de 2 Km e parou frente à galeria. Um quadro de um azul imenso enchia toda a vitrine. Era o cartão de apresentação da 1ª grande exposição de Edgar – “O céu não pode estar longe”.
“- Gostas? Parece-te demasiado lamechas? – perguntara nervoso – é uma espécie de elogio a ti e à nossa bebé. Estou tão feliz … o céu não pode estar longe”.
Tinham decorrido quase 6 meses.
Pela segunda vez o telemóvel interrompeu:
- Estou a caminho. 10 minutos.
Subiu, o mais apressado que aquela barriga enorme permitia, e dirigiu-se ao gabinete de Joana, que a esperava ansiosa.
- Vanda, finalmente…já não sabia o que mais inventar… Pedi ajuda ao Pedro e ele está há meia hora a empatar os investidores. Não podes continuar assim amiga…
Vamos fechar este negócio!
Os sinos da igreja repicaram interrompendo os seus pensamentos. Era meio-dia.
Trocou as flores murchas, pelas frescas que comprara na loja da Camila. Acendeu um círio e contemplou a foto de Edgar, uma vez mais.
Sentia tanta saudade daquele olhar meigo, do seu sorriso, daquele abraço forte e das palavras maravilhosas que lhe dirigia - És linda…“ – parecia ouvi-lo.
Ali, naquele local, sentia-se mais próxima.
Era como se o Céu não pudesse estar longe, tal como aquele quadro, que permanecia na vitrine da galeria, sempre lhe fizera sentir.
Mas o seu mundo era lá fora, atrás dos enormes portões, longe desse Céu, mais próxima – cada vez mais próxima de Maria.



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